As aventuras em locais de grandes altitudes podem trazer paisagens deslumbrantes, de literalmente "tirar o fôlego", e isso pode ser muito perigoso para a saúde. Nesse post trago algumas explicações sobre o mal da altitude e dicas de como evitá-lo e tratá-lo.
Como médica, estudei bastante sobre o assunto, e preciso dizer que fui inclusive buscar artigos sobre medicina aeroespacial antes de resolver escrever sobre esse tópico. Jamais escreveria aqui de maneira leviana ou irresponsável.
A diminuição na pressão parcial do oxigênio leva à diminuição da concentração de oxigênio no ar que respiramos, podendo afetar a função cardiovascular e causar uma série de sintomas e problemas para a saúde.
Mas por que as grandes altitudes podem causar esse mal estar?
A diminuição da oxigenação do corpo faz com que algumas substâncias tóxicas do nosso metabolismo se acumulem , aumentando a frequência cardíaca (o coração bate mais rápido) e a pressão arterial. Mesmo uma pessoa saudável, não sedentária, pode ter problemas ao mudar rapidamente de altitude.
Como sobreviver e amenizar esse mal que pode atrapalhar totalmente sua viagem na altitude?
Essa é a pergunta de milhões.
O mal da atitude pode acabar com a programação de uma viagem à altitude e pode ser bem grave, necessitando até mesmo de internação hospitalar ou (em casos extremos) de uso de câmaras hiperbáricas, mas quando a aclimatação é feita com responsabilidade, tudo termina muito bem.
O mal de Soroche ou mal da altitude é um mal estar físico bem comum em altitudes superiores a 2.000 metros, causada pela menor quantidade de oxigênio disponível. Quanto maior a altitude, menor a pressão atmosférica e com isso teremos menos moléculas de oxigênio disponíveis no ar. Com menos oxigênio, o organismo automaticamente tenta respirar mais rápido, isso vai alterar o equilíbrio pulmonar e o sangue vai se tornar mais alcalino, alterando a distribuição de sais e eletrólitos nas células. Os sintomas mais comuns são dor de cabeça, tontura, náuseas, falta de apetite, cansaço (fadiga), respiração mais rápida (taquipneia) e coração acelerado (taquicardia). Os sintomas não acontecem de imediato, pois eles vão chegando à medida que o corpo percebe que as mudanças estão acontecendo. Normalmente os primeiros sintomas surgem de 6-10 horas após a subida.
Por incrível que pareça pessoas mais jovens tendem a sentir mais os sintomas da altitude que pessoas mais velhas. Por esse motivo, alguns passeios não permitem menores de 16 anos, em locais de grandes altitudes.
Os sintomas podem se agravar nas subidas rápidas com mudança brusca de altitude e nos casos onde não se respeitam os limites do corpo. O que também pode acontecer em altitudes maiores causando até edema pulmonar e cerebral.
Como prevenir e combater o Soroche?
1. A aclimatação é essencial antes de qualquer atividade na altitude. Suba lentamente. O corpo necessita de 24-48h para se aclimatar. Programe-se para ter esse tempo disponível em lugares de altitudes menores e intermediárias, antes de subir.
2. Hidratação é mais que necessária. A altitude desidrata. Tente dobrar sua ingesta líquida. Beba pequenos goles de maneira quase constante.
3. Evite álcool e comidas pesadas. O metabolismo fica mais lento e a digestão acontece mais devagar, dando a sensação de que a comida não desce. Em altitudes maiores, a bolha de ar do estômago (assim como todo o ar do organismo) tende a se expandir e temos a sensação de empachamento e plenitude gástrica. O álcool tembém demora mais a ser metabolizado e atrapalha a aclimatação.
4. Chá de coca e mascar folhas de coca. Os povos andinos disseminam esse costume e em muitos hotéis há disponibilidade do chá de coca na recepção. Pra mim não teve nenhuma diferença. Mas cada organismo tem suas características próprias. Ah, ao mascar as folhas de coca, não é pra engolir, tá? Observação importante: o chá de coca e a folha de coca não é cocaína e nem derivado, tá? E não tem nenhum risco de alucinação ou de dependência. Outra alternativa é o chá de Chachacoma, uma erva medicinal comum nos Andes.
5. Repouso. Nas primeiras 24h, evite esforços físicos intensos. Se possível, ao chegar no hotel, deite por umas 3-4 horas e permita que seu corpo se adapte. Respire lentamente.
6. Mantenha o passo desacelerado. Não precisa acelerar para conhecer tudo. Faça com ritmo mais lento e deixe o grupo e o guia ciente de suas dificuldades.
7. Medicações. O uso de medicamentos para dor de cabeça como o paracetamol ajudam muito. Assim como o uso de simeticona ou dimeticona podem ser úteis para a sensação de dilatação do estômago. Consulte seu médico antes de viajar para a altitude. A acetazolamida é um medicamento que acelera o metabolismo do oxigênio e pode ser muito útil, mas condições como a diabetes podem ser agravadas por esse medicamento.
8. Doenças pre-existentes. Algumas doenças pre-existentes como a anemia falciforme, doenças pulmonares como a asma crônica e a DPOC, apneia grave do sono, cirurgias recentes de descolamento de retina, arritmias cardíacas não controladas e a insuficiência cardíaca podem ser contraindicações relativas ou absolutas para esse tipo de viagem, mas outras doenças também podem ser afetadas pela baixa oxigenação. Não esqueça de consultar seu médico antes de contratar viagens para a altitude.
9. Respiração. O organismo automaticamente vai tentar respirar mais rápido. Evite respirações curtas e aceleradas. Respire lenta e profundamente para reter mais oxigênio no organismo.
10. Preparo físico. Naturalmente, uma pessoa que tem um bom preparo físico com condicionamento cardiovascular vai ter uma melhor capacidade pulmonar e tende a ter menos sintomas. Uma pessoa sedentária irá sofrer mais.
11. Medir a oxigenação. Ter um oxímetro disponível pode ajudar a detectar precocemente o aparecimento de condições mais graves. Smartwatches modernos já fornecem essa medida e podem ajudar muito com a monitoração da frequência cardíaca.
E se a gente subir acima de 2.500m o que pode acontecer?
Normalmente os sintomas começam a aparecer em torno dos 2.500m de altitude. O ideal é passar de 24 a 48h nessa altitude para depois seguir subindo. E passar 24h para cada 500m adicionais que se sobe. Em altitudes mais baixas os indivíduoas saudáveis não apresentam sintomas.
A medida que se aumenta a altitude, os sintomas podem se tornar mais graves, principalmente na subidas mais rápidas, sem aclimatação. O ar que está dentro do organismo tende a se expandir em altitudes acima de 3500m, gerando sensação de plenitude gástica e sensação de sinusite (o ar dos seios paranasais também se expande, causando dor).
Acima de 4.500m (acima de 12.000 pés) podem acontecer hipóxia leve a moderada (queda na oxigenação do sangue), insônia, cefaleias, tonturas mais graves e náuseas importantes e o aparecimento de uma tosse seca e persistente que pode evoluir para uma tosse com espuma rosada (sinal de edema pulmonar). A partir dessa altitude já existe risco de um quadro de doença aguda das montanhas.
Em altitudes consideradas extremas (acima de 5.500m ou 18.000 pés) há risco de hipóxia grave e edema pulmonar e cerebal, com confusão mental, perda de conscência e insuficiência respiratória.
Precisamos lembrar que em muitos desses lugares de grande altitude e remotos, o socorro pode não ser imediato. É imporante deixar o grupo e o guia ciente dos sintomas para evitar situações agudas de gravidade. Ah! Não viage sem seguro viagem com uma boa cobertura.
Como é o tratamento desses sintomas?
As medidas de aclimatação e hidratação geralmente são suficientes para tratar todos os sintomas do mal da altitude. Em alguns casos será necessário suplementação de oxigênio e uso de medicamentos.
O tratamento dessas condições agudas e graves é a descida imediata para altitudes mais baixas, uso de oxigênio suplementar e alguns medicamentos vasodilatadores que diminuem a pressão pulmonar. Em casos muito graves, é necessário o uso de uma câmara hiperbárica (saco hiperbárico portátil) para estabilizar a pessoa antes da dscida.
Devo cancelar uma viagem por medo do mal da altitude?
A resposta é: depende. Normalmente, não é necessário fazer o cancelamento por medo, mas pessoas sedentárias e com condições médicas predisponentes precisam consultar a opinião e ter a liberação de seu médico assistente antes de partir nesse tipo de aventura.
Considere ter tempo para se aclimatar em altitudes menores. Gaste um pouco mais com uma acomodação adequada, que ofereça o conforto de uma boa noite de sono. Alguns hotéis em lugares turísticos na altitude oferecem oxigênio no quarto ou oferecem suplementação de oxigênio a preços acessiveis.
Com organização e planejamento você vai desfrutar de uma viagem maravilhosa, mesmo em condições adversas de altitude.
Em que lugares turísticos devo me preocupar com a altitude?
Não somos um casal sedentário. Fazemos atividade física regular e temos um bom preparo cardiovascular. Mas, mesmo assim, seguimos todas as regras da altitude. Fazemos a climatação com cuidado, andamos devagar, nos hidratamos bem e sempre procuramos descansar pelo menos 3 horas ao chegar nos lugares de altitude antes do primeiro passeio.
Moramos na França de 2002 a 2005 e por lá fizemos alguns passeios nas montanhas dos Alpes Franceses, inclusive a Chamonix, mas nunca percebemos nenhum efeito da altitude nesses locais.
Nossa primeira experiência com a altitide de verdade foi em 2015 quando fomos a Cuzco (3.400m). Seguimos as orientações de um amigo médico de Lima. Ainda no aeroporto de Lima tomamos 01 comprimido de acetazolamida e ao chegarmos em Cuzco fomos descansar no hotel. Depois saímos para uma caminhada de reconhecimento do lugar. Aí a gente descobriu que qualquer caminhada mais acelerada ou escadaria demandava um esforço muito maior e ficavamos com falta de ar e taquicardia. A gente acordou de noite com falta de ar, na nossa primeira noite em Cusco. Quarenta e oito horas depois estávamos em melhores condições. mas não foi preciso desmarcar nenhum passeio ou realizar alguma intervenção maior. Ficamos muito bem! Ah, a acetazolamida nos deixa com a sensação de que as bebidas gasosas estão sem gás.
Em seguida descemos para Machu Pichu (2.430m) com descemos 1.000m, na mesma viagem, a gente lá parecia atleta! Não sentimos absolutamente nenhum sintoma por lá.
Em 2026 fomos para o Deserto do Atacama (2.300-4.600m), Deserto da Bolivia (4.900m) e Salar Uyuni (3.650m) e 10 anos a mais que na ida ao Peru. Dessa vez não tivemos sintomas nenhum no Atacama, respeitando a aclimatação. Quando partimos para a Bolívia, aí sim! Muitos sintomas. Dor de cabeça, sensação de empachamento, fadiga, dificuldade de respirar (até um episódio de leve cianose) e taquicardia. Nos hidratamos bastante, alimentação saudável, dormida confortável e uso de acetazolamida ajudou muito. Depois das primeiras 24h na maior altitude, tudo foi se acomodando e conseguimos ficar bem, sem necessidade de suplementação de oxigenio ou atendimento médico - UFA!
Reforço que a altitude traz paisagens maravilhosas, mas é precisso ter cuidado e ser responsável. Desejo viagens lindas a todos.

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